Republico aqui um de meus textos favoritos, saudades da África! Clique aqui para ler o original
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Acho que foi algo que aprendi desde criança: ajudar… ainda lembro quando meu pai trazia meninos-de-rua para dormir em nosso apartamento. Minha mãe, mesmo surpresa, dava banho, roupas comida e no dia seguinte meu pai os levava para casa, quando eles tinham uma. A minha experiência no Movimento Escoteiro por 16 anos só acabou por aprofundar essa necessidade, verdade, essa é a palavra… necessidade. Tenho uma grande necessidade de ajudar o próximo. Quando isso não acontece, parece que está faltando alguma coisa… Ficou na minha cabeça o velho lema: “O Escoteiro pratica diariamente uma boa ação”.
Muitas vezes, me peguei refletindo sobre a possibilidade de ter nascido no final dos anos 40, por que o que eu queria mesmo era ter minha passado a minha juventude na décade de 60. O mundo estava em erupção! Guerra Fria, Ditadura, Revolução Cuabana, JFK nos EUA, JK no Brasil, Brasília, Beatles, Woodstock, sexo, drogas and rock and roll. Como era simples ter uma causa para acreditar. Capitalista ou socialista? Regime Militar ou Ditaduta? Duas Alemanhas, duas economias, corrida armamentista, espacial, tecnológica. Independência da África… tantos motivos para lutar, tantos ideais para viver e, por que não, morrer. Cansei de sonhar em ter feito parte daquela juventude, por que em alguns momentos senti a minha juventude estática, silenciada pelo consumismo, pelas futilidades televisivas, pela mesquinhês de pensar que os problemas da humanidade giram ao redor do seu umbigo. Queria ter podido escolher um lado, poder ter escolhido uma rebeldia combativa. Não essa rebeldia sem causa dessa nossa idiocracia adolescente.
É fato que com a queda do Muro de Berlim morreu o sonho de um mundo mais igual, mais justo e o fim da Ditadura no Brasil parece ter deixado a nossa juventude da década de 80 silenciada após o fracasso das “Diretas Já”. Tancredo foi eleito indiretamente e com sua morte, assumiu Sarney, que não foi eleito por ninguém. Sem Ditadura, o inimigo deixou de ser tão claro, as coisas se tornaram mais difusa. Não existiam mais subersivos, nem ditadores. No desenrolar da nossa jovem democracia, os culpados se tornaram Banco Mundial, FMI, Collor e FHC. Ninguém sabia exatamente por que lutar, ou quem eram os culpados de nossos problemas, a coisa ficou dispersa… antes era mais fácil: fora ditadura! A ditadura acabou… e agora? Vamos lutar por que? O pior é que a velha esquerda militante assumiu o poder do nosso país e manteve velha a política econômica, o real fez 15 anos e por dentro o PT comemorou o sucesso do plano inimigo, por fora nada falou. O governo se rende ao caudilho presidente do senado. E os saudosos combatentes do Araguaia são hoje acusados de corrupção.
E assim muitos de nós continuam perdidos, calados, tentando se convecer de que o sonho acabou, ou o que é pior: vivendo sem sonhar. Desde da década de 80 percebeu-se uma desmobilização profunda na defesa dos ideiais, entretanto, mesmo fracassada, a militancia esquerdista das décadas de 60 e 70 nos ensinaram que vale apena lutar para defender suas idéias na tentativa de vivermos em um mundo melhor. É por isso que podemos observar uma verdadeira multiplicação das ONG’s desde os anos 90. Claro! O homem precisar lutar por alguma coisa… o tempo pode ter levado vários sonhos ao luto, mas não matou a esperança. Acredito que a multiplicação das ONG’s é mais que um sinal da disperção da luta é um sinal claro que a luta continua, mas vem com outra cara: é a luta contra a fome, a pobreza e, por que não, o aquecimento global. Não temos mais um muro para derrubar e a luta se diversificou, se sofisticou, se tornou mais detalhada: ONG para salvar baleias, gatos, cachoros, florestas, gente. ONG para saúde, educação, lazer e esporte. ONG para tudo. Você acredita em que? Você quer mudar o que? Escolha seu grupo, mobilize, levante sua bandeira e vá a luta… o mundo moderno nos dá essa possibilidade. Não estamos presos na velha batalha direita X esquerda, comunismo X capitalismo, bem X mal, o céu X terra. O mundo é mais complexo que essa dicotomia barata medieval. Se você quer ajudar uma causa, seja qual for, vá a luta companheiro. É hora da sociedade civil exigir o que é certo e acabar com o que está errado. O governo construiu escola, estrada, hospital? Não fez mais que sua obrigação. É para isso mesmo que ele existe… não devemos ser gratos ao governo por nos fornecer aquilo que é seu dever: o bem-estar social.
Mais que uma batalha político-partidária, a necessidade que temos hoje é por uma batalha humanística… não violência, democracia, direitos iguais, gestão transparente, ecologia, gênero, fim do racismo, etc. Todos eles são conceitos universais que precisam ser aplicados nos quatro cantos do planeta. Enquanto existir um povo que sofra pela falta de qualquer um desses elementos, existe uma luta a ser travada. E quando falo de luta, não falo de armas. Já foi o tempo que precisavamos pegar o fúzil para defender os nossos ideais. O que precisamos são de boas idéias e vontade de ajudar. Isso é o que eu chamo de “espírito voluntário”… minha esperança é que esse espírito se torne um corrente crescente. Imagine se cada um de nós ajudasse o próximo um pouquinho? Imagine se cada um de nós dedicasse um pouco do seu tempo para ser um agente de transformação da realidade? John Lennon disse Imagine, mas quem realmente escutou? E o coitado acabou morto a tiro em plena Big Apple. Já o velho Marx disse “Trabalhadores do Mundo, uni-vos!”. Esse, muita gente escutou, mas entedeu errado. Foi uma tentativa de mostrar que a exploração proletária não era um problema de chineses, japoneses, americanos, ou brasileiros, mas sim, um problema Universal. Esse é o espírito… sei que é difícil, se que leva tempo, mas a idéia é simples: o mundo deve ser um lugar bom para todos. Não perco a esperança e continuo alimentando o meu espírito voluntário, tentando aumentar a corrente. Escolha sua causa e lute por ela. Levante a sua bandeira e não deixe ela cair. Chega de reclamar do Estado, do político, da polícia, da televisão. Estou cansando de ouvir reclamações sem ação. Está errado? Mude. Não consegue arrumar sozinho? Peça ajuda. Não deu? Pelo menos você fez a sua parte… se cada um fizer um pouco podemos alcanças um todo. E é nesse todo que eu quero viver, um todo de liberdade, igualdade e fraternidade. Isso mesmo os velhos ideais da Constituição Norte-Americana, que chegaram na Revolução Francesa e que acançaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E nossa tarefa hoje é bem mais fácil… não precisamos cortar cabeças, lutar contra reis ou nazi-fascistas. Basta cada um fazer a sua parte… mas que parte é essa? Isso… só você pode responder. E aqui da África vou seguindo voluntário, vou seguindo sem emblema, sem regime. Não significa que sou apolítico, sou apenas apartidário. Nada contra os políticos, e se essa é sua praia… basta ser honesto. Vou contribuíndo da maneira que posso, lutando por meu ideal, acreditando que mais pessoas poderão fazer a sua parte e sonho que um dia, talvez, meus filhos vão viver em um mundo mais justo.
Já faz algum tempo que deixei de querer ter vivido na década de 60, foi quando percebi que a nossa revolução é agora.