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George Orwell e o segundo turno

24/10/2010

Faz poucos dias, ao entrar no meu quarto, me deparei com a obra “Revolução dos Bichos de George Orwell[i] em cima de minha escrivaninha. Apesar de ter-la lido em meus anos de Universidade de Brasília e de também ser um grande fã da obra 1984[ii], decidi mergulhar mais uma vez no texto, fiz isso talvez diante da angústia política em que me encontro no segundo turno dessas eleições, creio que essa seja também a angustia de muito brasileiros.

Abri as primeiras páginas e fui me deliciando com a leveza das palavras de Orwell, com a genialidade com que ele denunciava as desigualdades da velha União Soviética: “todos os bichos são iguais”, mas com o passar dos anos alguns bichos se tornaram mais iguais que outros.  Entre o esforço sem limites abastecido pela crença cega do bom e velho cavalo Sanção e o luxo e a corrupção em que viviam os porcos pós-revolução, aquela releitura não me remeteu de imediato às desavenças entre Tróski e Stálin, à exploração do ploretário[iii], mas ao Brasil contemporâneo. O Brasil de companheiros que usufruem da máquina, que pensam na oposição não como uma adversária necessária à renovação democrática, mas como inimigos quem merecem ser extirpados[iv] e essa oposição, que assim como o porco Bola de Neve, se encolheu, não mobilizou, não se mexeu e assistiu transformarem seu legado no Leviatã que vendeu aos homens a granja, o Brasil.

“A Revolução dos Bichos” tornou a casa do granjeiro Jones os apartamentos funcionais de Brasília, com motoristas, ternos italianos e vinhos caros. No fundo, o que Jones queria era o poder. No fundo ele se importava apenas com seu umbigo rechonchudo. Mas vem o pior, depois da revolução conseguiram nos convencer de que nunca fomos tão felizes, de que o Brasil nunca foi tão grande. Números, dados, pesquisas… enquanto isso os hospitais continuam lotados como sempre, o transporte público ineficiente e as estradas esquecidas. O Brasil do horário eleitoral de A e de B, não é aquele que vejo quando saio todos os dias de casa para trabalhar. A possibilidade de comprar uma geladeira a prestação, não significa que vivemos em um país melhor. Assim como se deu a destruição do mito soviético, precisamos destruir o mito do “Brasil Feliz”. Por isso, somos animais enganados, as galinhas que botam ovos sem parar, as cabras que dão leite até doer às tetas, pagamos tantos impostos, mais de 40% por cento de nossa renda, para no final eles beberem o mel. A nós: o feno, talvez batatas.

Agora olhamos pela janela e vemos os porcos, como se referiu Orwell aos donos do poder, brigarem pela faixa. PT e PSDB se acusam, espionam e entre bolinhas de papel assistimos ao espetáculo da democracia da pátria que nos pariu. Entre uma candidata biônica e um ex-militante de esquerda líder de um grande partido de direita, o que fazer? Ser o ou não ser?

Ao conversar na rua ainda escuto o discurso do votar no menos pior, no que rouba mas faz. É isso o que nos resta? Essa é a democracia brasileira? A corrupção que fez os porcos da granja trocarem cinicamente o velho cavalo Sansão por uísque, colocou dinheiro na cueca, nas meias, nas “taxas de sucesso” e, em pleno século 21, vivemos uma modernidade que por trás da maquiagem trás o caudilhismo de outrora. O STF decidiu não decidir, o ex-governador da “bezerra de ouro” colocou a dona de casa para concorrer. E nós? Como ficamos? Não se preocupe, eles não se importam. Já a imprensa, que sempre abriu as caixas de pandora é o mocinho de A e vilão de B[v]. Entre as acusações de corrupção vem o “eu não sabia”, vem o “desconheço”… “Nunca ouvi falar”.

Militantes históricos, guerrilheiros de ontem que hoje se orgulham em fazer empréstimos ao FMI, defensores dos Direitos Humanos que tomam chá com Armadinejad, que saúdam uma Cuba falida, pobre e sem liberdade de expressão. Viva Fidel! Mas e a democracia? Orwell disse que pela janela, hoje televisiva, nós criaturas olhávamos de um porco para um homem, de um homem para um porco e no final era impossível distinguir quem era porco.

Paro por aqui, por que preciso colher o meu feno.


[i] ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo : Cia das Letras, 2007.

[ii] ORWELL, George. 1984. Sâo Paulo : Editora Nacional, 2003.

[iii] Palavra essa desconhecida pelo dicionário do meu Microsoft Word 2007.

[iv] “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira” – Lula, 13/09/2010.

Fonte: http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/09/precisamos-extirpar-o-dem-da-politica-brasileira-afirma-lula.html , acessado às 12:38 de 24/10/2010.

[v] “O problema do Brasil é o monopólio das grandes mídias, o excesso de liberdade e do direito de expressão e da imprensa.” – Dirceu 15/09/2010.

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,para-dirceu-imprensa-tem-excesso-de-liberdade,610220,0.htm, acessado às 13:15 de 24/10/2010.

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